quinta-feira, 16 de abril de 2026

Flaming soul

 Não sou pouco poeta de amor.

Sou mais da dor,

mais ainda,

poeta de mágoas e rancores,

porque poesia não é só, do Cupido, a flecha

é cetra, é soco e disparo, da mão do desamparo.


Seria eu vilã, por fazer a poesia sem virtude,

Poesia vã?


Quem me dera

se todo poeta

revelasse,

de forma clara e direta

que espuma de raiva,

que é capaz de socar paredes

de ter uma erva daninha no peito.


Não só leveza, amor, desejo,

e sim todo sem defeito.


[19.05.2021]

Hereditariedade

Se tem algo que eu herdei do meu pai é o inseto da melancolia. 

Sinto ele a me roer aqui, por dentro, desde menina. 

É ele que me põe como bicho, pra esquecer os assuntos humanos e contemplar o céu e os passarinhos.

Herança engraçada, mal cultivada, mas a mais verdadeira. 


Assim como o ódio, que sempre me salva.


[06.09.2021]

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Uma filha boa

(Homenagem à Angélica Freitas)


porque uma filha boa
é uma filha limpa
e se uma filha é limpa
ela é uma filha boa

porque uma filha boa
é uma filha obediente
e uma filha obediente
é mansa e boa e limpa

e uma filha má
é uma filha braba e suja
e uma filha braba e suja
é uma filha indesejada

porque uma filha boa
espere pacientemente
o comando do pai
espera pacientemente
o marido
e depois o comando do marido.

porque uma filha boa
é um pedaço de papel em branco
branca, limpa, inerte.

e uma filha boa
é uma filha calada
diante dos gritos do pai
e uma filha calada
é uma filha obediente.

porque uma filha boa
não tem o próprio desejo
é boa e limpa e frígida



Legítimo representante


No fundo da rua da minha casa,
que desce longe, numa quebrada,
mora um sujeito preto,
um sujeito louco.

Não se sabe como ele mora,
não se sabe se é drogado, viciado,
ou louco de vez e por hora.

Todo dia,
um pouco mais cedo um pouco mais tarde
ele sobe a rua.
Às vezes sereno, às vezes berrando qualquer diabrura.
Ele fala sozinho, ele fala pra lua,
tem o rosto fechado,
zangado.

Todo dia, no final do dia,
ele desce a rua.
Do mesmo jeito,
quase sempre zangado,
como quem desconhece alegria.

Mas, louco do jeito louco dele
que não se sabe o quanto é
ele representa o desejo ímpar, máximo, inenarrável,
de todo ser humano:
o de não ser invisível.

Basta vê-lo, vê-lo como um ser,
para além de um louco,
para além da sua pele.

Cumprimentá-lo, usar os olhos, ver...

Ele passa sereno,
sem xingamentos, sem diabruras,
sem zangar com ninguém.

Espectro ameno.


(março de 2021)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Me diga que sim

Você já teve algum desses das
em que você não está nada mal. 
Mas também...
nada vai bem?

Ou uma semana
ou um mês, 
ou meses,
assim?

O tempo se arrasta,
é mais castigo que bênção
e é você embotado?

Esses dias
que um sentimento opaco,
meio minguado
te invade?

Você já teve algum desses dias
em que a vida 
é pálida e anêmica
ao invés,
de gorda e oleosa?



{dezembro de 2020}

quinta-feira, 29 de outubro de 2020


Sua casa ainda está lá,
mas ela não é mais sua.
'Te vejo' nela todos os dias,
pois todos os dias passo por lá.

Você deixou seus rastros.
Todos os lados dessa cidade que detestas
de ti guardam
pequenos estilhaços.

E eu, pequena poeta
- se é que assim posso me dizer -,
parte desta terra
tenho alguns estilhaços no peito.

É deles que me fiz profeta.

Fui amaldiçoada!
Destinada a amar um lugar que não é meu,
mas que te guarda.


(Encontro com uma imagem esvanecida, em um texto perdido.

O texto é de 2017-2018, são só dois ou três anos, parece uma vida).

domingo, 6 de outubro de 2019

Apenas um texto sobre morte


Minha avó morreu. Dia 05 de outubro de 2019, aos 93 anos. Um dia antes do seu aniversário de casamento com meu avô, que já se foi há 26 anos. Para alguns eles se casaram de novo no céu.
Convivi com ela, diariamente, minha vida inteira: mesma casa. E minha avó morreu com um suspiro e os olhos fechados. Ela descansou. E descansou apenas depois de perder o movimento das pernas, depois dos braços, depois de ficar surda e perder a fala, depois de três AVC's, depois de perder a capacidade de comer e precisar de sonda gástrica, depois de algumas pneumonias e precisar de oxigênio constante. Depois de muitos sustos, dias e dias no hospital. Depois de longos cinco anos sofrendo. Ninguém deveria viver assim, ninguém deveria viver tanto.
Os últimos anos foram difíceis, sempre foi. A imagem de uma avó é sempre a de uma mulher doce e sábia. Ela só tinha a segunda qualidade. Minha avó não sabia demonstrar afeto, ao menos não com declarações de amor, abraços ou beijos. Era fechada, ríspida, briguenta. Era como um remédio forte, bem amarga, mas necessária.
Ela já foi uma mulher jovem, bonita e apaixonada, mas essa eu só conheci em fotos. A Estácia que sempre chamei de vó era aquela que soube ser boa esposa, que criou cinco filhos, que tinha punhos de ferro. Muitas vezes era rabugenta e reclamona, acho que foi o que aprendeu na vida. Dificilmente algo estava bom para ela. Ela carregava essa amargura que só quem sofreu muito sabe, e que a gente só consegue espiar. Mãe de cinco filhos, avó de oito netos, e outros tantos bisnetos. Família nunca é fácil, ela precisava ser assim, e precisou mais ainda quando meu avô morreu.
Mas, como disse, era remédio forte, amarga e necessária. Soube ser matriarca como poucas vezes vi. Era necessária, essencial, de tantas formas, soube amar de tantas outras. Poucas pessoas sabem, mas foi minha avó que pagou boa parte dos meus estudos (se não fosse ela, se fossem só colégios públicos, quem sabe se seria advogada, professora?) e boa parte do meu tratamento ortodôntico, que me ensinou, sem querer ensinar, educação financeira. Foi minha avó que me fez gostar de plantas dentro de casa, e do silêncio, e da organização... É da comida dela que vou sentir falta para sempre. Ela socorreu financeiramente filhos e netos, sempre. Era seu jeito de cuidar, mesmo que às vezes exigisse alguma contrapartida disso. Mesmo que às vezes parecesse não amar ninguém.
É o que uma mulher da idade dela, do tempo dela, poderia fazer. Filha de imigrantes, sua infância foi trabalho e penúria. Quase não estudou, mas não se contentava em ser apenas dona de casa, ela trabalhava, costurava e até mesmo criava roupas. É o que ela pode fazer, já que poucas vezes na vida pode de fato, pensar em si mesma. É o que uma mulher como ela poderia fazer, é o que uma mulher como ela poderia ser.
Só que ela não foi só isso, foi muito mais e não cabe aqui. Minha avó era feminista, era resistente, mesmo sem saber! E eu só queria dizer que minha avó foi a mulher que, polaca e de olhos azuis, casou-se com um negro – o primeiro que muitos em sua colônia viram, em um Brasil muito mais racista que o de hoje. Ela trabalhava e tinha seu próprio dinheiro, em meio a uma sociedade na qual isso não era visto com bons olhos. Minha avó para qualquer um , talvez, pareceria uma velha 
solitária, ranzinza, conservadora. Ela era tudo isso sim, mas também era pra frentex, era um mulherão da porra!

Ninguém deveria demorar tanto para morrer como ela demorou. Ninguém deveria sofrer tanto. Ninguém deveria viver tanto e não entendo quem deseja isso para si.
E o mundo não deveria exigir de mulher nenhuma ser tão forte como minha avó era. Foi o mundo exigiu que ela fosse remédio amargo.

Obrigada por ter sido sempre assim, vó, por ter feito o seu melhor. Que eu saiba honrar seu legado!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A mão e o homem (Crônicas de uma trabalhadora pendular I)


Sábado passado, estava eu, mais uma vez, voltando de União para Ponta Grossa, pequenina de cansaço em um estado parcial de vivicitude, como o stand by das televisões e outros aparelhos eletrônicos. Era como se metade de mim estivesse no sono e a outra na realidade – o balanço do ônibus induz o sono que, junto com o cansaço, bate forte e faz as pálpebras pesarem toneladas. No entanto, sono frágil e incerto – insônia e ansiedade sempre aparecem para dar um olá, me lembrando de que ainda estão aqui. Mas o certo é que nesse estado de semi-vigília ou semi-sono, eu fiquei entre cochilos e assombros com as paradas, captando poucas informações a respeito da realidade do ônibus que me cercava.
No entanto, ao acordar de um cochilo, provavelmente pelo barulho que o ônibus fez ao passar por uma estrada malacabada, abri os olhos, taciturna, desconcertada e vi a mão. Não foi um homem e sua mão que vi primeiro, mas sim a mão e seu homem. Uma mão bruta, velha, tatuada, não acreditei no que meus olhos estavam captando (depois de captar quase nada ao longo da viagem)! Não era uma mão qualquer, era uma mão tatuada: suástica nazista. Acordei acordada! O sono sumiu! Fiquei alerta como um cão de caça.  Misto de inquietude, assombro e um desejo indiscreto de saber mais. 
Passei, um tanto quanto indiscreta mesmo, a examinar o homem que aquela tatuagem, que aquela mão portava. Nada demais, não era um jovem skinhead neonazista, não tinha nenhuma outra qualidade física que saltasse aos olhos. Era apenas um senhor de uns 70 anos, pele clara, mas judiada, olhos claros.
Talvez a jaqueta de couro pudesse significar algo, talvez o boné. Mas, nada, nada, era tão perturbador quanto aquela mão. Talvez, no mais, a idade – tanto da tatuagem quanto do senhor – fosse o que assombrasse demais. Se fosse um jovem, talvez nem tudo estivesse perdido; a maioria de nós é extremamente estúpido quando jovem e, quem sabe eu ainda o seja, já que não posso me arrogar a ideia de que sou velha (seria outra estupidez). Mas não, era um homem velho com uma tatuagem velha, tatuagem que há anos figurava naquela mão, explícita, sem maiores problemas, anunciando para o mundo que seu portador, muito provável, consegue desejar a morte, é permeado por um ódio indecente.
Esse misto de inquietude, assombro e desejo indiscreto de saber mais me coagiu a mandar mensagem à um amigo e, no instante em que ele respondia, em tom jocoso, “vá falar com ele”, outro fato ocorreu. Parando o ônibus em mais uma cidade, entrou uma mulher, sentou-se no banco à frente dele. Não o olhou, não cumprimentou, desconheceu. Cinco minutos depois, um bilhete é passado, dela para ele, de forma furtiva. Tentei ler o que ele lia. Míope sem óculos que estava, depois de alguns segundos, tive que desistir. O que seria esse bilhete? O meu amigo, por óbvio, que já não me levava a sério, no seu imaginário apenas figurou a possibilidade de ser um casal que combinava de ir ao motel, sair junto ou outra coisa. Ideia que foi reforçada quando reparei, melhor olhando, que aquela mão também era portadora de uma aliança.
Seria algo tão simples? Quem sairia com um nazista senão alguém que compactuasse com as ideias que ele carrega na mão? Não sei dizer ao certo, meu imaginário – povoado de histórias de Agatha Christie lidas na infância – se perguntou se ele não seria um matador de aluguel. Parece impossível e estúpido falar sobre, escrever sobre, mas acontece, e mais perto do que imaginamos. Poderia ser, poderia ser um acerto de morte, de serviço, qualquer coisa que apontasse justificativa.
Mais dez minutos, o homem saiu do seu assento para figurar ao lado da mulher, conversam um pouco e, logo, desceram juntos, com pouco disfarce de que se conheciam. Todavia não pareciam namorados, não eram carinhosos, não estavam corporalmente próximos demais... De certo que era apenas meu desejo indiscreto de saber, sobretudo sobre tudo que vejo e ouço. Parte de mim quis descer junto, segui-los, como uma louca, descobrir quem eram o que iriam fazer. Loucura total, que parte minha é essa capaz de tamanho contrassenso? 
A razão venceu o ímpeto, fiquei – eu. Me deixaram só no ônibus, não de fato, mas me senti só, sem ninguém que pudesse perscrutar, sem o amigo que já não me levava muito a sério, buscando a leveza para a cena. A única seriedade foi: escreva sua história sobre isso. Mas não queria uma história de Agatha Christie e nem poderia – sou apenas artesã das palavras.
Resolvi atender a sugestão – e cá estou – vez que tudo isso me fez perceber que não era um homem que eu via, era uma mão personificada, um sujeito objetificado – sobre o qual eu estava tecendo as mais variadas conjecturas sem nem sequer saber nada, nada mesmo, sobre ele. Muito menos sobre a mulher! O máximo que sei são suas características físicas e nada mais.... Provável, repito, que meu amigo estivesse certo, eles iriam namorar e nada mais. Nazistas também amam, e sentem dor, e comem e vão ao trabalho e, talvez, às vezes, escrevem sobre seus cotidianos.
Saber disso não resolve a questão ou diminui o assombro. O que fazer com o outro?
 E se ele tivesse sentado ao meu lado?
Eu, incomodada, teria levantado para sentar-me em outro lugar (a não ser que o assombro e o medo me paralisassem)?
Atitude correta? Não seria o mesmo que eles, em regra, fazem, e que critico tanto? Segregação? Como agir diante de alguém assim? O que significa no aqui, na região onde eu moro, um nazista à plena luz do dia, sem medo de se mostrar? O que alguém assim é capaz de fazer, o que alguém assim desperta dentro de nós?
Me pergunto e mantenho em mente a assertiva de Deleuze, é preciso vigiar o fascista em nós. Assim como os matadores de aluguel, os fascistas então mais perto do que imaginamos. Às vezes, eles se sentam próximo a você no ônibus, outras vezes, é só examinar o espelho.

On the road, 30 de maio de 2019.