terça-feira, 19 de março de 2013

Nessa rima eu asso

Fracasso, a sensação que me prenda à laço nesse espaço. Até parece que estou no hiperespaço, ou então perdido num Paço. E eu, que só queria me afogar no seu melaço, te dar um amasso, estou viciado no seu cigarro, no seu maço. É que na verdade meu coração transborda, não está escasso. Não sou nem devasso, apenas trespasso por um erro crasso!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Brasileiros: ninguém sabe quem eles são

Às sete da manhã, ele acorda, todos os dias. Sem banho, bota a calça jeans, os sapatos, a melhor camisa - passada e  engomada, sempre branca, bege, rosa claro... Come porque é obrigado a comer e saí às ruas. Está vestido com sua armadura: ombros erguidos em uma postura fechada e face casmurra. Desfila a sua magreza, a sua pele negra e o seu "cabelo ruim", todos os dias.  
Todos os dias ele saí de casa, no bairro distante,  sem ônibus que queira pegar. Ele anda; anda do bairro  ao centro, do centro ao outro bairro, trajeto que dura quase a manhã inteira. 
Ninguém sabe se ele almoça. 
No final da tarde, do outro bairro ao centro, do centro ao seu bairro e à sua casa ele retorna. Vestido com sua armadura. 
Ele é velho, apesar dos fartos cabelos marrons em seu médio "black power" (nem sequer um branco), não usa aliança, mas tem perfume de mulher nas roupas e poderia ser avô. Ninguém sabe quem ele é, ninguém sabe se realmente tem mulher ou filhos, mas todos sabem que ele é negro, velho. Parece indigente, mas não é, pelas roupas limpas que sempre veste - principalmente a camisa passada e engomada, sempre branca, bege, rosa claro...
Todos os dias, ele anda, todos os dias ele passa por vários rostos, casmurros como o dele, suaves, infantis, cansados, melancólicos... Mas estes rostos não o vêem. Ele é uma sombra, uma armadura que quando detectada causa medo e repulsa.
Ele é João, brasileiro.
Às oito da manhã ela acorda, porque a acordam, todos os dias. Toma banho, obrigada. Veste as roupas, sempre saia média, meia-calça cor de pele, sapato baixo, "tipo freira". Seus cabelos já bem grisalhos e nunca pintados são feitos em coque. Sua expressão é cansada. 
Não sei se come. 
Todos os dias, ao sair de casa, ela pega guarda-chuva e ônibus, sempre o que quer pegar e não o que deveria. Vai ao mercado, anda, anda e anda, pega as verduras e sai. Pega outro ônibus, este sempre é o que deve. Ela vai ao calçadão da cidade, por vezes, come algo por lá. 
Sua expressão é cansada mas a voz é potente. Anda do inicio ao final do calçadão, esbravejando em favor da moral e dos bons costumes. A menina de saia e decote que se cuide, para não virar motivo para o seu sermão.
Do final ao início  do calçadão ela esbraveja em favor da moral e dos bons costumes, de Deus e do que mais lhe vem na cabeça.
Muitos passam por lá mas estes ouvidos não a ouvem. Os olhos ligeiros, reparam a sua expressão exaltada, causando medo e repulsa. Os mais jovens fogem velozes, principalmente quando interpelados. 
Ninguém sabe porque ele fala essas coisas, a tarde inteira, todos os dias. Mas todos sabem que ela é parda, velha e não fala nada com nada. Desfila pelo calçadão as suas sentenças, desfila o cabelo grisalho, a saia média, a meia-calça cor de pele e o sapato baixo "tipo freira". Seus cabelos feitos em coque quase desmancham. Tem cara de viúva que perdeu também os filhos. Mas alguém cuida dela, porque as roupas são limpas. 
Todos os dias, no final da tarde, ela pega o ônibus, desta vez sempre o mesmo, e chega em casa. 
A sua expressão é cansada. 
Ela é Maria, brasileira.
Às vezes quando João passa pelo calçadão, Maria já está lá. Ela não o vê, e ele não a escuta. E todos os dias, ninguém se pergunta quem eles são, nem porque João é casmurro e Maria cansada.  

Brasileiros: ninguém sabe quem eles são

Às sete da manhã, ele acorda, todos os dias. Sem banho, bota a calça jeans, os sapatos, a melhor camisa - passada e  engomada, sempre branca, bege, rosa claro... Come porque é obrigado a comer e saí às ruas. Está vestido com sua armadura: ombros erguidos em uma postura fechada e face casmurra. Desfila a sua magreza, a sua pele negra e o seu "cabelo ruim", todos os dias.  
Todos os dias ele saí de casa, no bairro distante,  sem ônibus que queira pegar. Ele anda; anda do bairro  ao centro, do centro ao outro bairro, trajeto que dura quase a manhã inteira. 
Ninguém sabe se ele almoça. 
No final da tarde, do outro bairro ao centro, do centro ao seu bairro e à sua casa ele retorna. Vestido com sua armadura. 
Ele é velho, apesar dos fartos cabelos marrons em seu médio "black power" (nem sequer um branco), não usa aliança, mas tem perfume de mulher nas roupas e poderia ser avô. Ninguém sabe quem ele é, ninguém sabe se realmente tem mulher ou filhos, mas todos sabem que ele é negro, velho. Parece indigente, mas não é, pelas roupas limpas que sempre veste - principalmente a camisa passada e engomada, sempre branca, bege, rosa claro...
Todos os dias, ele anda, todos os dias ele passa por vários rostos, casmurros como o dele, suaves, infantis, cansados, melancólicos... Mas estes rostos não o vêem. Ele é uma sombra, uma armadura que quando detectada causa medo e repulsa.
Ele é João, brasileiro.
Às oito da manhã ela acorda, porque a acordam, todos os dias. Toma banho, obrigada. Veste as roupas, sempre saia média, meia-calça cor de pele, sapato baixo, "tipo freira". Seus cabelos já bem grisalhos e nunca pintados são feitos em coque. Sua expressão é cansada. 
Não sei se come. 
Todos os dias, ao sair de casa, ela pega guarda-chuva e ônibus, sempre o que quer pegar e não o que deveria. Vai ao mercado, anda, anda e anda, pega as verduras e sai. Pega outro ônibus, este sempre é o que deve. Ela vai ao calçadão da cidade, por vezes, come algo por lá. 
Sua expressão é cansada mas a voz é potente. Anda do inicio ao final do calçadão, esbravejando em favor da moral e dos bons costumes. A menina de saia e decote que se cuide, para não virar motivo para o seu sermão.
Do final ao início  do calçadão ela esbraveja em favor da moral e dos bons costumes, de Deus e do que mais lhe vem na cabeça.
Muitos passam por lá mas estes ouvidos não a ouvem. Os olhos ligeiros, reparam a sua expressão exaltada, causando medo e repulsa. Os mais jovens fogem velozes, principalmente quando interpelados. 
Ninguém sabe porque ele fala essas coisas, a tarde inteira, todos os dias. Mas todos sabem que ela é parda, velha e não fala nada com nada. Desfila pelo calçadão as suas sentenças, desfila o cabelo grisalho, a saia média, a meia-calça cor de pele e o sapato baixo "tipo freira". Seus cabelos feitos em coque quase desmancham. Tem cara de viúva que perdeu também os filhos. Mas alguém cuida dela, porque as roupas são limpas. 
Todos os dias, no final da tarde, ela pega o ônibus, desta vez sempre o mesmo, e chega em casa. 
A sua expressão é cansada. 
Ela é Maria, brasileira.
Às vezes quando João passa pelo calçadão, Maria já está lá. Ela não o vê, e ele não a escuta. E todos os dias, ninguém se pergunta quem eles são, nem porque João é casmurro e Maria cansada.  

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Três (não) atos.

Há cinco anos seus olhos me fitaram pela ultima vez, embebidos de lágrimas de ódio. E, embora silêncio fosse a única palavra dita, ainda posso ouvir seu grito, em desespero embargado: "Porque você não morre?"
Agora são meus olhos que a fitam. Sem pensamentos. Sem ações. Porque, diabos, estou eu aqui? Minha presença só será incômodos - nós juramos nunca mais palavra, olhar e gesto. E nesta noite, impossível não notar a sua beleza, tão mulher: vestido simples, vermelho tão rouge. É que nesta noite ela é o centro das atenções, ganhou o que sempre sonhara, ser (Ser!) uma escritora de renome, noite de prêmios, esta.
Esta, é comemoração radiante.
É um hotel e quase todos os convidados dormirão aqui. Alguém, com ela, dormirá? Posso sentir, pelo seu corpo, olhos desejosos, macio... Santo deus!

***

Hora dos discursos. Estão todos com taças de mil espumantes nas mãos. Seu sorriso irradia uma felicidade bêbada e é a sua hora de falar, então. Tanta potência na voz, meu cristo, como essa menina cresceu! De um cantinho sem sol para ser o sol de todos.
Agora, enquanto ela discursa, estou à frente, dez metros de distância, é a hora dos discursos, é a hora do discurso dela, é a hora de ela me notar... Ergue a taça, me olha (finalmente!) e agora (agora de novo) o mundo parou, para que novamente possamos nos olhar perplexos? Não... todos estão perplexos, os gestos da minha doce menina pararam, já não olha mais para mim, a sua voz sumiu como se alguém tivesse apenas abaixado o volume e desligado seu corpo. 
A estrela da noite desmaia. É muita emoção para minha pequenina. Ao menos foi o que ela disse,  recobrando os sentidos, bem como, o que a imprensa noticiará amanhã. Eu sei que fui eu. Enquanto ela se retira para o quarto, atuando uma indisposição, procura-me na multidão. Vai, procura!! Que eu desapareço, com um grande sorriso nos lábios. Ainda sou nocivo à pequenina. 
Vou até seu quarto. 
(Ainda não sei  o que faço).

***

Três batidas da porta. Ela manda entrar, com a mesma voz eloquente de minutos antes. Pensa ser um tal de Augusto, pede que espere no quarto, que ela está no banheiro. Mas eu não aguento esperar, preciso ir lá... Abafo meus passos para que ela não reconheça as minhas pisadas de brigadeiro aposentado. Seu cheiro doce (e enjoativo) de rosas exala por todos os cantos deste quarto de hotel. Poderia dizer que ela viveu todos os seus dias aqui. Cada detalhe é ela. 
A porta do banheiro está entreaberta. Ao ouvir o ranger, ela repreende: "Augusto, já disse que não gosto quando entra no banh... Você!?" 
Dizer que o choque se instalou em seu respirar é demasiado mesquinho e efêmero. Apenas sua face endureceu, e não há surpresa em seus olhos sombrios. 
Porque está em uma banheira cheia de travesseiros?, excêntrico como ela sempre foi. Se eu realmente perguntar ela dirá: banheiras sempre foram confortáveis, apenas troquei a água pelos travesseiros, a sensação de relaxamento é a mesma, e eu não preciso me molhar. O que faz aqui? E eu diria, o papai voltou para cuidar de você minha pequenina, amor de minha vida.
Mas não...
Se é ela quem sempre embargou a voz e não conseguiu falar, agora é minha vez. Estou eu em choque. (Porque eu?) Não me movo, apenas a olho, estendida na banheira, confortavelmente, ela olha para a frente, e parece não querer me dar nem um segundo de seus olhos. 
Eu nunca fui bom pai, e ela nunca foi tão gostosa como agora (agora!)...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um pecado necessário

Obras em hospitais são tão horripilantes e nauseabundas, na mesma quantia em que são completamente imprescindíveis. Um hospital precisa atender aos seus doentes com excelência em todas as esferas – e acredito, isso não é exigir de mais. Entretanto, porém e todavia... qualquer homem que entre em um hospital com obras as sentirá como pecado puro. Se sentirá doente, estando ou não. O barulho das brocas e das marteladas estremecem o corpo. Tão alto é o som, que qualquer um poderia jurar que lhe sai da própria cabeça, como se um pequeno animal estivesse martelando seu crânio. Procurando sair. Loucura. Pecado. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A falena e a luz sibilante


Queria ser no instante de agora o instante nada, ser a liberdade pura, que é a mesma coisa. Desejo enfim, ser solidão. Não queria sair deste quarto repugnante e pungente. Não queria jantar, o contato com a comida é sair da solidão, é estar preso ao próprio instinto animal. Queria menos ainda contatos humanos, banais, medíocres ou sibilantes. Aguentar a mim mesma é mesmo difícil nessas horas, os outros, são, na mesma medida os outros, os corpos estranhos e inatingíveis que me dão medo na mesma proporção que dão à tímida infante. Eu não aguento os outros.
Queria o impossível, a negação da negação, que não, não é a síntese. É o nada. Queria estar morta, mas não morrer, não o suicidar-se, não o homicídio, apenas estar morta, a sete palmos do chão que todos nós pisamos, nos tempos de hoje, raramente descalços.
Queria portanto o Impossível.
Queria telefonar-te e dizer: vem. Mas não seria você quem estaria aqui. E não seria eu. No instante de agora eu não sou eu, nem tu, nem nós, eu sou o vácuo sem ser o nada. Queria escutar-te a ligeira Petulância, o quase sempre descarado supérfluo Superficial, e a irresistível e irritante Sensualidade que exala da sua respiração. Que eu nem sei mais como é. Eu não sei quem você é, nessa abstração onde só cabe idealismo. O amor é um ideal, que no instante de agora renego e desejo, desesperadamente. Como a falena que sai ao encontro da lâmpada, para morrer no mesmo instante que atinge seu objetivo.
Eu sou a falena que morre todos os dias, pois corre e encontra a luz todas as noites. Mas eu não renasço das cinzas. Sou apenas pó.  

domingo, 30 de dezembro de 2012

Mais um ano que se vai, mais lições que se aprendem...

Para o findar deste 2012, deixo a mim, e a qualquer que leia estas míseras palavras,  o meu relato de, sem dúvidas, a cena mais linda deste ano:
Estava eu, a descer a rampa do supermercado, saindo do mesmo, quando, de súbito, observo no topo da rampa oposta, à minha frente, uma senhora já muito de idade em uma cadeira de rodas e, provavelmente, sofrendo de males da velhice como a esclerose. Foi o que pude notar. Quem à levava, era, sem dúvidas, seu filho. 
Ao descerem a rampa, o filho e a mãe, embalou o primeiro a cadeira de rodas e desceram rapidamente, como as crianças gostariam de fazer estando por cima dos carrinhos de supermercados. O resultado foi simples, uma alegria estampada, das mais luminosas, percorreu o rosto dolorido da velha senhora bem como do filho. 
Talvez pareça bobagem este relato, mas como é fácil trazer apraz alegria à toda gente que entende o que é simplicidade e sabe viver com ela. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tesouro sujo, cor mostarda.

Nunca fui de escrever sobre objetos. O que sempre me impulsionou, sempre me fascinou é a figura humana, em todas as suas nuances, sabores e sentimentos. Mas sinto a necessidade de por em palavras aquela casa.
Uma casa simples, metade madeira, metade alvenaria, arquitetura provavelmente do início do século passado. Mas simples.
Amarela mostarda, suja, como se estivesse esquecida.
Com certeza, despercebida, humilde.
Sua presença nunca antes notada, quase desfalecida, abandonada, como pude nunca antes tê-la notado? A presença tímida foi ganhando forma, espaço, ideia, até explodir em absoluto. Preciso conhecê-la, seus meandros, seus quartos, suas falhas.
Como pode um objeto possuir tanta atração? O que existe nesta casa que me impulsiona, que me paralisa, que me domina por completo? Ela exige-me que eu a olhe, que eu a pense, que eu a sinta, que se torne palavra falada e escrita. E em cada palavra, há outra, submersa, dizendo-me, estás maluca, estás obcecada por uma velha e imunda casa. 
Parece ser um grito abafado antes da morte,  prestes a ser demolida, prestes a ser sucumbida em suas próprias memórias. Posso acordar amanhã e ela não estará lá, como para mim, não estava antes, tudo será igual. Mas sua ideia permanecerá, sentirei sua nostalgia e sua falta. E, eu nem a conheço. Eu nem a entendo, não vi a fundo suas formas suntuosas e retas.
Desespero em não poder vê-la de perto. Quase como se meu destino estivesse atrelado ao dela, como se lá houvesse o tesouro de minha vida. Reto, ambíguo. Secreto. Inacessível. 
Sua presença será para sempre O Quase.